Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA

domingo, novembro 13

No entanto, assim que o conflito se estabeleceu e chegou à opinião pública, o caldo entornou.

TELEANÁLISE

  

CORRAM COM A MARCHA QUE A POLÍCIA VEM AÍ


MALU FONTES

Enquanto mais um ministro passava a semana pendurado no pau de arara das denúncias de corrupção, desta vez no Ministério do Trabalho, o Brasil acompanhava take a take pela TV os movimentos de uma espécie de Malhação real, em versão para adultos e com ares de suspense policial: a peleja travada entre a Polícia Militar de São Paulo e o grupo de estudantes que invadiu a Reitoria da USP após três alunos terem sido levados para uma delegacia por terem sido flagrados fumando maconha no campus. Esse “era” o embate inicial, um conflito interno travado entre uma penca de alunos e a PM.

No entanto, assim que o conflito se estabeleceu e chegou à opinião pública, o caldo entornou. O roteiro foi ficando cada vez mais complexo e non sense, o número de personagens envolvidos foi aumentando literalmente aos milhares a cada dia e papéis de mocinhos, vítimas, heróis, vilões, bárbaros e bandidos foram sendo atribuídos, seguidos de pedido de clemência ou de invocação a um massacre moral ou físico sumário, por tudo o quanto é gente que hoje pode dar sua opinião, seja diante de uma câmera de TV, numa entrevista a um repórter de veículo impresso ou on line, numa rede social ou nos comentários postados sobre a cobertura do assunto nos sites jornalísticos.

VILÃO - É preciso dizer que o roteiro muda completamente de versão e os personagens mudam completamente de atores a depender dos lugares sociais, econômicos, ideológicos, e sabe-se lá o que mais outros, de quem os vê e os adjetiva. Um mesmo ator social pode, nesses roteiros construídos pela opinião pública, como se tem visto na cobertura televisiva e em toda a midiosfera, assumir, em um, o papel de vilão estrategista interessado em privatizar a USP, em outro o de mocinho-salvador da pátria e da honra moral da universidade pública e, em um outro roteiro, o de um picolé de chuchu invertebrado que não tem pulso firme o suficiente para mandar a PM arrebentar com um boa coça os arruaceiros, vagabundos e maconheiros que, ao invés de estudar, querem puxar um fumo à vontade sem serem importunados na universidade.

Esse papel triplo na trama USP versus PM tem sido atribuído a ninguém menos que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Os partidos de esquerda radicais como o PCO (Partido da Causa Operária) ficam com a primeira opção para caracterizar o papel do governador nesse imbróglio, a opinião pública média tende a ficar com a segunda classificação e os conservadores saudosistas da ditadura não pestanejam em categorizá-lo no terceiro papel. Para quem viu o programa do Partido da Causa Operária exibido essa semana no Horário Eleitoral Gratuito na TV deve ter ouvido a explicação da legenda para o que aconteceu: os estudantes que invadiram a reitoria da USP o fizeram como revolucionários que são, em sua luta em favor da sociedade brasileira e contra a sanha estatizadora do tucanato contra as universidades públicas. Que maconha? Não, essa versão jamais chegou aos ouvidos do PCO.

Embora muitos comentaristas que defendem o direito dos uspianos fumarem seu bagulho à vontade no campus sem serem importunados pela Polícia tenham dito que a mídia tradicional massacrou os manifestantes, a verdade é que muitos jornalistas os defenderam em suas colunas. Outros tantos, entre personalidades, especialistas e professores defensores de um tratamento, digamos, ‘diferenciado’ aos universitários por parte da Polícia, também se manifestaram em diversos debates na TV fechada (na aberta os debates inexistem). O nó maior da questão do conflito na USP se deu não em função do episódio inicial, mas no fato de este ter se transformado no estopim de trocentos mil debates que não há como um veículo como a TV explicar claramente a seus telespectadores. Primeiro, apenas uma pequeníssima parte da opinião pública brasileira sabe que a Polícia não entra nos campi universitários públicos por uma conquista e ao mesmo tempo um tabu herdados da ditadura militar.

CRACOLÂNDIA - Como, na época da ditadura e em parte do tempo que a precedeu a Polícia entrava na Universidade não para policiar, mas para prender, censurar e reprimir professores e alunos considerados subversivos, com a redemocratização, um dos direitos conquistados pelas universidades públicas foi o de se proteger da Polícia, mantendo-a longe. No entanto, as coisas no Brasil mudaram um tantinho desde o fim da ditadura, a violência urbana explodiu e como a universidade não é uma bolha em relação às cidades onde estão instaladas, a criminalidade também chegou aos campi com assassinatos, estupros, roubos e tráfico. Diante dessa mudança de cenário, boa parte de estudantes e professores hoje já se deram conta que esse conto da carochinha de Polícia só da porta para fora não irá muito longe. Foi o que aconteceu na USP. Um estudante foi assassinado durante um assalto e desde então a USP (que é estadual, mantida pelo Governo de São Paulo), fez um acordo para a PM atuar dentro do Campus.

Era uma questão de tempo: os policiais viram estudantes fumando maconha no campus da USP, maconha ainda é uma droga ilícita, não fizeram vista grossa e o resto é o que se viu na imprensa. O que começou com umas tragadas evoluiu para a rejeição já existente contra o reitor, para as relações entre o PSDB e os partidos de esquerda e chegou à campanha eleitoral, quando o candidato do PT ao governo de São Paulo, o atual ministro da Educação, Fernando Haddad, insinuou que a Polícia havia exagerado ao invadir a reitoria ocupada pelos estudantes. Afirmou que a USP não é a cracolândia (para ser invadida daquele jeito). Mesmo que o caso da USP comporte uma série de questões peculiares, a universidade pública que bote as barbas de molho, pois, do jeito que a coisa anda em termos de segurança pública no país, é bom que os estudantes abracem mais fortemente a causa e as marchas da legalização da maconha, pois, sim, a Polícia vem aí e nunca vai ter modos de mordomo francês. 

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmenteno jornal A Tarde, Salvador/BA.

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